O estilo poético de Ademar de Sousa Maria
A poesia de Ademar de Sousa Maria nasce da alma e se eleva ao pensamento, unindo emoção e reflexão num mesmo voo. Em versos livres e linguagem simbólica, o autor revela um lirismo moderno, marcado pela busca interior e pela consciência do mundo que o cerca.
Sua escrita transita entre o íntimo e o coletivo, entre o sentir e o pensar. As palavras tornam-se pontes — ligando o homem ao planeta, o instante ao eterno. Com forte carga subjetiva e metafísica, Ademar transforma sentimentos em imagens e metáforas, conduzindo o leitor a uma experiência de beleza e reflexão.
Em cada poema, o autor reafirma a força da poesia como expressão da vida, do amor e da esperança, sob o olhar sensível de quem vê na arte uma forma de compreender o próprio existir.
Aqui está uma poesia original, inspirada no tema dos cometas, escrita no estilo de Ademar de Sousa Maria (verso livre, simbólico, reflexivo e com toque de lirismo).
Rasgam o véu do escuro
como pensamentos que acordam tarde demais.
São mensageiros de fogo,
lembrando à Terra
que o infinito respira —
e que somos poeira com memória.
Em cada rastro de luz
há um nome não dito,
um amor que partiu antes da aurora,
um pedido que o tempo esqueceu.
O cometa passa.
E eu fico,
olhando o risco no céu,
esperando o instante em que também
me tornarei brilho de passagem.
Ademar de Sousa Maria
9 de novembro de 2025.
Soneto da Calçada
Na calçada da minha casa antiga
Passou metade da vida que eu vivi;
Gente que some, gente que se abriga,
E eu sentado olhando tudo daqui.
Foi nela que aprendi a velha briga
Do bem contra o tropeço que sofri;
Também ouvi conversa que edifica,
E vi criança rindo de si naquele lugar.
Hoje essa calçada é quase um livro,
Guardando o passo manso da vizinha,
O vendedor de fruta e o dia lento.
E mesmo eu, às vezes, meio esquivo,
Sento ali pra lembrar que a vida vinha
E me tocava, simples como o vento.
Ademar de Sousa Maria
16 de novembro de 2025.
Soneto da Cantiga
Brota no meu peito uma cantiga
Feita de passos lentos pela rua;
É quase nada, mas assim me abriga,
Um fio de luz que a tarde continua.
Canto baixinho, e a voz antiga
Desenha o tempo que me acompanha e atua
No vai e vem da vida que fatiga,
Mas nunca deixa a alma tão nua.
É simples — como um riso que desarma,
Como um gesto pequeno que ilumina
A dor guardada em dobra tão secreta.
E quando a melodia enfim termina,
Um resto dela ainda me acalma
E segue comigo pela noite quieta.
Ademar de Sousa Maria
16 de novembro de 2025.
Soneto Chove lá fora
Chove lá fora, e a tarde se desfia
Num véu de cinza a recobrir o mundo.
No peito, a solidão faz moradia,
E o tempo passa lento e vagabundo.
A água na vidraça desafia
Meu gesto inquieto, tenso e tão profundo;
Parece ser do céu melancolia
E do meu coração eco mais fundo.
Mas há na chuva um tanto de esperança:
O chão respira, a vida se renova,
E a dor, por um momento, se descansa.
E eu, que sou do vento a sombra nova,
Descubro que a saudade, quando cansa,
Também se deixa ir na chuva nova.
Ademar de Sousa Maria
16 de novembro de 2025.
Soneto da Cortina da violência
Há uma cortina escura ergue-se aflita
No palco desses dias tão cansados;
É a violência, sombra que visita,
E fere os passos nossos, assustados.
Por trás do pano, a dor sempre palpita,
Um nó que marca tempos maltratados;
A rua perde a cor, se torna aflita,
E os sonhos vão se encolhendo, calados.
Mas mesmo assim, resiste a claridade:
Um gesto bom, um grito por justiça,
Um fio de fé na força da verdade.
E enquanto a noite tomba e se enguiça,
A esperança acende — em leve idade —
Um lume frágil, mas que não se fixa.
A criança corre solta pela tarde,
Inventando mundos com a própria mão;
Ali, o tempo esquece o que é alarde,
E a vida pulsa em pura vibração.
Salta, gira, cria e nunca tarda:
No riso dela cabe um verão;
E tudo o que é duro logo se guarda,
Perde peso, vira outra invenção.
Eu paro e vejo — quase como prece —
O brilho simples que renova o dia,
Um sopro novo em cada brincadeira.
E entendo que a alegria acontece
Naquela forma livre de poesia
Que só as crianças têm de forma inteira.
Nós percorremos linhas paralelas — tu numa e eu noutra —,
caminhando lado a lado sem jamais nos encontrarmos.
Vemos o mesmo pôr do sol, respiramos o mesmo ar rarefeito,
mas nossas mãos nunca se tocam.
Nossos corações batem em compassos semelhantes,
como se partilharam um mesmo ritmo secreto,
mas cada batida é solitária, eco de um desejo contido.
Vejo-te nas curvas do horizonte, no traçado das montanhas,
e imagino que, se por acaso as trilhas se curvassem,
talvez nos encontraríamos numa esquina do destino.
Mas as retas insistem: tu segues tua linha, eu sigo a minha.
Nossos sonhos são espelhos — refletem um ao outro,
mas nunca se sobrepõem, nunca se fundem.
Sussurro teu nome no silêncio,
como se a brisa pudesse levá-lo até ti.
Sinto o peso de tudo o que não foi dito,
a ternura que ficou em suspenso entre o nosso caminhar.
Somos paralelas — tão próximas quanto distantes,
e há uma beleza triste nessa geometria da alma:
a certeza de que, mesmo sem nos encontrarmos,
nossos horizontes se tocam em cada pensamento.
Ademar de Sousa Maria
23 de novembro de 2025
Mundo contraditório
No mundo contraditório,
a aurora flutua sobre a noite como uma promessa incompleta,
e o silêncio vibra com o som de mil perguntas sem resposta.
Há uma ponte invisível que liga o medo ao desejo,
e cada passo é uma dança de incerteza.
As flores crescem com raízes que buscam o céu,
mas também se envergam para tocar a terra seca.
Meus pensamentos se partem em dois: uma metade acredita,
a outra teme que acreditar fira.
As vozes interiores sussurram segredos conflitantes,
testemunhas da guerra silenciosa entre o que sou e o que poderia ser.
No espelho da alma, eu enxergo reflexos duplicados,
sorrindo e chorando ao mesmo tempo.
Existe beleza nas contradições — dizem os ventos,
mas essa beleza arde como brasa na palma da mão.
Ainda assim, persistem as perguntas surdas,
e meus lábios procuram palavras que nunca têm fim,
porque mesmo no caos mais profundo,
há uma ternura nascente,
um fio tênue de esperança que insiste em ser tecido.
E eu me encosto nesse fio, me deixo balançar,
esperando que esse mundo paradoxal
me leve para onde os sonhos e as dores se reconciliam.
Ademar de Sousa Maria
23 de novembro de 2025
Noite enluarada
A noite enluarada repete segredos antigos que só a lua entende,
como se o céu descorresse sua pele prateada sobre a terra.
Cada sombra parece um verso suspenso no ar,
dançando em silêncio entre as árvores retorcidas.
Os campos dormem sob um manto translúcido de prata,
e o vento, tímido, sussurra desejos perdidos.
Nas estrelas, reconheço fragmentos de memórias —
rostos amados, risos já esquecidos, promessa de reencontro.
Fecho os olhos, e a brisa me acaricia os sonhos,
trazendo com ela um perfume de saudade e mistério.
As folhas se inclinam como em reverência à lua,
e eu me torno parte dessa cerimônia silenciosa.
Sinto-me flutuar entre pulsações lentas do tempo;
a vida e a morte se entrelaçam nas bordas da escuridão.
A lua me observa, distante e compassiva,
e, no seu brilho, encontro um espelho de mim mesmo.
Há paz, sim, mas também um tremor de melancolia:
porque a noite que brilha tão forte também consome.
Mesmo assim, perco-me nessa claridade suave,
entrego-me ao encanto noturno,
beijo a sombra das árvores, abraço o frio do orvalho,
e, sob a lua, sou inteiro e fragmentado ao mesmo tempo.
Ademar de Sousa Maria
A tarde estende seus véus dourados sobre o mundo
O vento recolhe murmúrios deixados pelas horas cansadas
Há um brilho antigo no horizonte, como se o tempo respirasse
As nuvens, fiandeiras da luz, tecem caminhos de silêncio
Pássaros atravessam o cenário com pressa de dormir
As casas acendem o cansaço e a esperança ao mesmo tempo
Um menino observa a sombra crescer atrás de si
Tudo se move devagar, como se o dia hesitasse em partir
A claridade se curva num gesto de despedida
Árvores sussurram segredos não contados ao cair da noite
A tarde, espetáculo sem plateia, desenha seu próprio aplauso
Os mares internos de cada um se aquietam aos poucos
O céu queima em silêncio, vermelho de eternidade
O vento traz o perfume de lembranças que nunca foram minhas
O asfalto devolve brilhos que não pertencem a ele
Um cão late para a última faísca de luz
Tudo parece suspenso, como se aguardasse um sinal
A tarde me toca os ombros com mãos invisíveis
Há uma promessa de paz na curva do sol
E quando enfim anoitece, sinto que também me recolho
Porque a tarde, mesmo finda, ainda mora em algum lugar dentro de mim.
Ademar de Sousa Maria
24 de novembro de 2025
Entre céus e marés
Caminho pelo limite onde o céu desce para beijar a água
O mar me fala em línguas que ainda não aprendi
E o vento traduz apenas a metade do que deveria
Há uma inquietação azul rastejando pelos meus pés
O sal da maré antiga escorre pela memória que invento
Entre céus e marés, sou apenas um fragmento
Uma sombra errante sobre a superfície inquieta
O horizonte me chama como um nome esquecido
O corpo responde com passos curtos, quase timidez
De longe, gaivotas escrevem rotas invisíveis
De perto, o mundo cabe no estalar de uma onda
O dia se desdobra como um lençol sobre o mar
Sinto a brisa me tomar como quem acolhe um retorno
Há tanto silêncio escondido nas marés baixas
E tanto grito preso nas marés altas
Talvez eu também seja feito desses extremos
A água insiste em lamber a areia como quem pede perdão
O céu responde com luz, numa elegância imensa
Entre os dois, caminho, imperfeito equilíbrio
Sou ponte, sou fenda, sou espera
Sou apenas mais um errante entre céus e marés.
Nenhum comentário:
Postar um comentário